Aprenda sobre o sonhar

Sonhar acordado

No ônibus, na fila do banco, no meio da aula: de repente você está em outro lugar. Refazendo uma discussão com a resposta perfeita, ensaiando a conversa com o chefe, vivendo a casa na praia que ainda não existe. Isso é sonhar acordado — ou devanear, como diz a psicologia —, e ocupa um pedaço enorme do nosso dia.

Tem gente que procura o tema com culpa, achando que é perda de tempo. Outros procuram com medo de fazer isso demais. As duas dúvidas têm resposta, e as duas passam pelo que acontece de noite. O mapa dos sonhos noturnos fica em tipos de sonhos.

A gente divaga mais do que imagina

Num estudo famoso de 2010, voluntários recebiam alertas no celular em horários aleatórios e contavam o que estavam fazendo e pensando. Em quase metade das vezes a cabeça estava longe da tarefa. O mesmo trabalho mostrou que as pessoas relatavam um pouco menos de felicidade enquanto divagavam, principalmente quando o pensamento escorregava para assuntos ruins.

O tema é estudado há décadas. O psicólogo americano Jerome L. Singer começou nos anos 1950 e separava o devaneio positivo e construtivo — brincalhão, esperançoso, voltado para o futuro — de estilos marcados por culpa, medo ou dificuldade de sustentar a atenção. Não conta só a quantidade: conta o clima do devaneio.

Parente próximo do sonho noturno

Quando a atenção se volta para dentro, entra em ação um conjunto de regiões chamado rede de modo padrão. Essa rede participa quando lembramos do passado, imaginamos o futuro e pensamos nos outros — e já foi associada também ao sonho noturno. Nesse sentido, devaneio e sonho são da mesma família: nos dois, a mente simula experiências que não estão acontecendo.

Só que há diferenças importantes. Acordado, você costuma saber que está imaginando, consegue mudar o rumo e a lógica do mundo fica de pé. O sonho da noite chega com convicção total e pouco controle — a não ser que você fique lúcido. A fronteira entre os dois é a zona sonolenta das alucinações hipnagógicas, onde um devaneio pode assumir o volante e virar sonho.

Para que serve devanear

Sonhar acordado ajuda a planejar, ensaiar conversas, imaginar saídas e manter vivos os objetivos de longo prazo. Num experimento, quem fez uma pausa com uma tarefa fácil, daquelas que deixam a mente passear, depois teve ideias mais criativas para usar objetos comuns do que quem fez uma pausa puxada ou pausa nenhuma. Afrouxar o foco dá espaço para um problema emperrado se reorganizar; o guia de sonhos e criatividade leva essa ideia para o sono.

Os devaneios também revelam o que importa. As fantasias que voltam sempre — outro emprego, um reencontro, ganhar na loteria, largar tudo e morar no interior — apontam para necessidades reais: segurança, reconhecimento, liberdade, pertencimento. Ler essas fantasias como se lê um sonho, com o método de como interpretar sonhos, pode ser bem revelador.

Quando passa do ponto

O psicólogo clínico israelense Eli Somer criou o termo devaneio excessivo (maladaptive daydreaming) para descrever fantasias vívidas e envolventes que tomam horas do dia, são difíceis de interromper e atrapalham trabalho, estudo ou relações. Quem vive isso costuma descrever histórias elaboradas, com personagens fixos, muitas vezes disparadas por música e acompanhadas de andar de um lado para o outro ou movimentos repetitivos.

Não é um diagnóstico oficial nos grandes manuais, mas vem sendo cada vez mais pesquisado e costuma andar junto com solidão, ansiedade, depressão, dificuldades de atenção ou sofrimentos antigos. A fantasia pode até consolar; o problema é o preço. Se ela está tomando o lugar do sono, das pessoas ou de responsabilidades que você valoriza, conversar com um profissional de saúde mental ajuda mais do que tentar se corrigir na base da culpa.

Como lidar com os seus devaneios

Separe divagar de ruminar. Pensar na apresentação de amanhã é útil; reprisar uma briga pela quadragésima vez quase nunca é. Quando perceber um loop, pergunte se ele leva a alguma ação. Se não leva, dê um nome a ele e volte para algo concreto: a respiração, uma caminhada, a tarefa na sua frente.

Você também pode abrir espaço para o devaneio de propósito: andar sem fone, um banho demorado, dez minutos olhando pela janela. Anote as fantasias que se repetem, como faria com os sonhos recorrentes. Com o tempo os temas voltam, e essa repetição mostra o que a mente está tentando resolver — acordada ou dormindo.

As pessoas também perguntam

Sonhar acordado faz mal?+

Em geral, não. Ajuda a planejar, criar e refletir. Vira problema quando é constante, compulsivo, quase sempre negativo ou toma o lugar de partes importantes da vida.

Devaneio e sonho são a mesma coisa?+

São parentes — nos dois a mente simula experiências —, mas acordado você costuma ter algum controle e saber que está imaginando.

O que é devaneio excessivo?+

Um nome para o devaneio imersivo que ocupa muitas horas e atrapalha a rotina. Não é diagnóstico formal, mas é tema de pesquisa ativa.

Por que eu sonho acordado o tempo todo?+

Tédio, estresse, necessidades não atendidas, cansaço e diferenças de atenção aumentam a divagação. Reparar quando e sobre o que você viaja é a melhor primeira pista.

Devanear ajuda a criatividade?+

Sim, na medida certa. Estudos sugerem que deixar a mente vagar durante uma tarefa fácil ajuda a encontrar soluções mais originais depois.

Símbolos relacionados

Como o sonhar funciona

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